Ele extravasou toda sua fúria no palco, martelando uma velha
mosrite com palhetadas pra baixo. Bastavam quatro ou cinco acordes pra
enlouquecer os seus fiéis seguidores. Pernas abertas, calça rasgada no joelho e
jaqueta de couro. A franja comprida escondia o olhar tenso e furioso. Pra mim
essa é uma cena tão forte e emblemática quanto o Homem-Aranha saltando entre prédios
de Nova York. Há quem diga que aquele cara nunca soube tocar guitarra. Mas, doa
a quem doer, foi um dos guitarristas mais importantes da história. Por trás da
imagem rebelde e desleixada do Punk, existia um exemplo de disciplina,
organização e empreendedorismo.

Ler Commando - A autobiografia e Johnny Ramone (lançado recentemente pela LeYa) pra mim foi um daqueles pequenos prazeres que não tem preço.
Desde muito cedo o Johnny despertou minha atenção. Lembro de assistir aos
clipes na MTV e observa-lo. Talvez fosse o cabelo, a maneira como tocava, a
cara amarrada, o jeito caricato, para mim parecia um personagem de desenho
animado que ganhou vida. Mas apesar de ser um fã dos Ramones naquela época,
pouco sabia sobre seus integrantes. Ainda não existia muito material na
internet, e tudo que eu tinha em mãos era Cd’s e fitas cassete. Hoje, mais de
dez anos depois, é um prazer enorme conhecer o que se passava no âmbito interno
da banda, da perspectiva do próprio Johnny.
Como li por aí em alguma resenha, o livro tem a pegada de um
show dos Ramones, é direto e rápido, sem rodeios. Johnny narra sua trajetória
desde a infância, quando colecionava cartões de baseball e sonhava em ser um
jogador profissional. Foi nessa época que teve o primeiro contato com o Rock’n
Roll, através daquele que viria a ser seu maior ídolo. Era 1956 quando Elvis
Presley se apresentava no famoso programa Ed
Sullivan Show, transmitido em rede nacional. O Rock era a nova febre e provocava
no jovem um sentimento de liberdade, fomentando um forte confronto de gerações.
James Dean, a personificação do rebelde sem causa, arrastava multidões aos
cinemas. Na próspera América pós-guerra, a TV tinha papel decisivo para
incentivar o consumismo e reforçar a identidade nacionalista do “american way of life”.
Acho que aquele momento teve grande influência na
personalidade do Johnny e, mais pra frente, no som dos Ramones. Ali ele
descobriu suas grandes paixões – o cinema e o Rock, e adotou uma postura política
de extrema direita. Apesar do seu jeito reservado, começou a apresentar problemas
nas ruas e na escola, onde foi afastado da equipe de Baseball por mau comportamento.
Ele era intransigente, nunca gostou de seguir ordens. Foi durante a
adolescência também que formou sua primeira banda. Um dos integrantes, Tom Erdély,
viria a ser Tommy Ramone. Mas nessa época tocar guitarra não era uma prioridade pra Johnny, além do
mais, ele tinha certeza de que não levava jeito pra aquilo. Era apenas um
garoto antissocial rebelde e entediado. E foi um verdadeiro delinquente juvenil.
Envolvia-se em brigas, roubava, usava drogas... Por muito tempo aquela foi a
sua postura diante da vida, até o dia em que, sem mais nem menos, decide mudar
o rumo das coisas:
Eu estava com 20 anos. Vinha
caminhando por um quarteirão da vizinhança, em algum lugar próximo da 99th
Street com a 66th Road, em Forrest Hills, e ouvi uma voz. A voz perguntou: “O
que você está fazendo com a sua vida? É pra isso que você está aqui?”. Foi um
despertar espiritual. E simplesmente parei com tudo na mesma hora. Ficou tudo
perfeitamente claro naquele instante. Fui para casa e parei de usar drogas,
parei de fazer todas aquelas coisas ruins e parei de beber. (JOHNNY RAMONE, Commando, LeYa, 2012, p. 31)
Sim, deve ter sido exatamente assim. Era de admirar a sua
capacidade de tomar decisões importantes repentinamente e cumprir à risca o
planejado. Uma vez decidido, deveria ser feito. Ele era firme e obstinado, e provavelmente
essas foram suas maiores qualidades.
Os Ramones começaram as atividades em 1974. A essa altura,
John Cummings não era mais um garoto, mas um homem demasiado sério que começava a
vislumbrar no Rock um meio de vida. A partir daquele ano ele concentrou todos
os seus esforços na banda. Jaquetas, jeans rasgados, cabelos compridos. Aquilo só
podia ter sido ideia do Johnny. Ele sabia a importância da imagem numa banda, e
fez questão de uniformiza-los. Também foi ideia sua adotarem todos o mesmo
sobrenome. Pouco a pouco, aquilo foi se tornando tão convincente que muitos viam no
quarteto algo caricato.
Em relação ao som, como falei, os Ramones tiveram forte
influência da música dos anos 50. As letras despretensiosas, poucos acordes e
refrãos marcantes eram características do Surf Music e do Rockabilly, e isso
explica todo o impacto que causaram nos anos 70. Ora, eles não estavam
seguindo a lógica da linha evolutiva do Rock, mas retrocedendo, algo inusitado
até então.
Foi pensando por aí que percebi o quanto Johnny foi decisivo na identidade
sonora da banda. Sabendo tratar-se de um nacionalista conservador, penso que
sua intenção era mesmo a de voltar às origens, antes da complexidade que transformou o Rock a partir da “invasão britâncica” nos anos 60. Assim, além aproximar-se
do primitivo Rock n’Roll norte americano, sua limitação técnica não seria problema. Esse foi o caminho.
Ao longo dos 23 anos de existência dos Ramones, houve altos e baixos.
Tommy, que pra Johnny foi seu grande aliado na banda, saiu em 1978, sendo
substituído por Marky. Na maior parte do tempo, era preciso lidar com um alcoólatra
(Marky), um Junkie (Dee Dee), e o Joey, que sofria de Transtorno Obsessivo
Compulsivo e que, segundo o próprio Johnny, foi a pessoa mais difícil que ele já
conheceu. Não deve ter sido fácil manter a casa em ordem, e se alguém merece
algum reconhecimento por isso, esse alguém era Johnny Ramone.
O Rock and Roll é um estilo de vida
insalubre. Você tem liberdade demais. Não tem chefe e pode fazer o que quiser.
Pode tocar chapado. Você jamais poderia chegar chapado a um emprego de verdade.
E há um monte de pressão para que você produza. Você pode ver sua carreira em
ascensão, depois em queda, e isso pode ser muito deprimente. Você também fica
tão tenso ao fazer um show que muita gente precisa de alguma coisa pra baixar a
bola. Quem não sabe lidar com a situação usa drogas. Eu não. Voltava para o
quarto com leite e bolachas. (JOHNNY RAMONE, Commando, LeYa, 2012, p. 118)
Ontem fez exatos nove anos que Johnny faleceu. Era 2004 e eu soube pelo
noticiário da TV. Naquela noite peguei o violão e fiz a primeira música da Fliperama. Foi uma singela
homenagem de um garoto ao seu ídolo. Lembro alguns versos:
É difícil aceitar
Todos estão indo embora
Não é fácil acreditar
Ouvir Ramones agora me faz chorar
Viva Johnny Ramone!