segunda-feira, 16 de setembro de 2013

À memória de Johnny Ramone


Ele extravasou toda sua fúria no palco, martelando uma velha mosrite com palhetadas pra baixo. Bastavam quatro ou cinco acordes pra enlouquecer os seus fiéis seguidores. Pernas abertas, calça rasgada no joelho e jaqueta de couro. A franja comprida escondia o olhar tenso e furioso. Pra mim essa é uma cena tão forte e emblemática quanto o Homem-Aranha saltando entre prédios de Nova York. Há quem diga que aquele cara nunca soube tocar guitarra. Mas, doa a quem doer, foi um dos guitarristas mais importantes da história. Por trás da imagem rebelde e desleixada do Punk, existia um exemplo de disciplina, organização e empreendedorismo.


Ler Commando - A autobiografia e Johnny Ramone (lançado recentemente pela LeYa) pra mim foi um daqueles pequenos prazeres que não tem preço. Desde muito cedo o Johnny despertou minha atenção. Lembro de assistir aos clipes na MTV e observa-lo. Talvez fosse o cabelo, a maneira como tocava, a cara amarrada, o jeito caricato, para mim parecia um personagem de desenho animado que ganhou vida. Mas apesar de ser um fã dos Ramones naquela época, pouco sabia sobre seus integrantes. Ainda não existia muito material na internet, e tudo que eu tinha em mãos era Cd’s e fitas cassete. Hoje, mais de dez anos depois, é um prazer enorme conhecer o que se passava no âmbito interno da banda, da perspectiva do próprio Johnny.

Como li por aí em alguma resenha, o livro tem a pegada de um show dos Ramones, é direto e rápido, sem rodeios. Johnny narra sua trajetória desde a infância, quando colecionava cartões de baseball e sonhava em ser um jogador profissional. Foi nessa época que teve o primeiro contato com o Rock’n Roll, através daquele que viria a ser seu maior ídolo. Era 1956 quando Elvis Presley se apresentava no famoso programa Ed Sullivan Show, transmitido em rede nacional. O Rock era a nova febre e provocava no jovem um sentimento de liberdade, fomentando um forte confronto de gerações. James Dean, a personificação do rebelde sem causa, arrastava multidões aos cinemas. Na próspera América pós-guerra, a TV tinha papel decisivo para incentivar o consumismo e reforçar a identidade nacionalista do “american way of life”.

Acho que aquele momento teve grande influência na personalidade do Johnny e, mais pra frente, no som dos Ramones. Ali ele descobriu suas grandes paixões – o cinema e o Rock, e adotou uma postura política de extrema direita. Apesar do seu jeito reservado, começou a apresentar problemas nas ruas e na escola, onde foi afastado da equipe de Baseball por mau comportamento. Ele era intransigente, nunca gostou de seguir ordens. Foi durante a adolescência também que formou sua primeira banda. Um dos integrantes, Tom Erdély, viria a ser Tommy Ramone. Mas nessa época tocar guitarra não era uma prioridade pra Johnny, além do mais, ele tinha certeza de que não levava jeito pra aquilo. Era apenas um garoto antissocial rebelde e entediado. E foi um verdadeiro delinquente juvenil. Envolvia-se em brigas, roubava, usava drogas... Por muito tempo aquela foi a sua postura diante da vida, até o dia em que, sem mais nem menos, decide mudar o rumo das coisas:


Eu estava com 20 anos. Vinha caminhando por um quarteirão da vizinhança, em algum lugar próximo da 99th Street com a 66th Road, em Forrest Hills, e ouvi uma voz. A voz perguntou: “O que você está fazendo com a sua vida? É pra isso que você está aqui?”. Foi um despertar espiritual. E simplesmente parei com tudo na mesma hora. Ficou tudo perfeitamente claro naquele instante. Fui para casa e parei de usar drogas, parei de fazer todas aquelas coisas ruins e parei de beber. (JOHNNY RAMONE, Commando, LeYa, 2012, p. 31)


Sim, deve ter sido exatamente assim. Era de admirar a sua capacidade de tomar decisões importantes repentinamente e cumprir à risca o planejado. Uma vez decidido, deveria ser feito. Ele era firme e obstinado, e provavelmente essas foram suas maiores qualidades.

Os Ramones começaram as atividades em 1974. A essa altura, John Cummings não era mais um garoto, mas um homem demasiado sério que começava a vislumbrar no Rock um meio de vida. A partir daquele ano ele concentrou todos os seus esforços na banda. Jaquetas, jeans rasgados, cabelos compridos. Aquilo só podia ter sido ideia do Johnny. Ele sabia a importância da imagem numa banda, e fez questão de uniformiza-los. Também foi ideia sua adotarem todos o mesmo sobrenome. Pouco a pouco, aquilo foi se tornando tão convincente que muitos viam no quarteto algo caricato.

Em relação ao som, como falei, os Ramones tiveram forte influência da música dos anos 50. As letras despretensiosas, poucos acordes e refrãos marcantes eram características do Surf Music e do Rockabilly, e isso explica todo o impacto que causaram nos anos 70. Ora, eles não estavam seguindo a lógica da linha evolutiva do Rock, mas retrocedendo, algo inusitado até então.
Foi pensando por aí que percebi o quanto Johnny foi decisivo na identidade sonora da banda. Sabendo tratar-se de um nacionalista conservador, penso que sua intenção era mesmo a de voltar às origens, antes da complexidade que transformou o Rock a partir da “invasão britâncica” nos anos 60. Assim, além aproximar-se do primitivo Rock n’Roll norte americano, sua limitação técnica não seria problema. Esse foi o caminho.

Ao longo dos 23 anos de existência dos Ramones, houve altos e baixos. Tommy, que pra Johnny foi seu grande aliado na banda, saiu em 1978, sendo substituído por Marky. Na maior parte do tempo, era preciso lidar com um alcoólatra (Marky), um Junkie (Dee Dee), e o Joey, que sofria de Transtorno Obsessivo Compulsivo e que, segundo o próprio Johnny, foi a pessoa mais difícil que ele já conheceu. Não deve ter sido fácil manter a casa em ordem, e se alguém merece algum reconhecimento por isso, esse alguém era Johnny Ramone.


O Rock and Roll é um estilo de vida insalubre. Você tem liberdade demais. Não tem chefe e pode fazer o que quiser. Pode tocar chapado. Você jamais poderia chegar chapado a um emprego de verdade. E há um monte de pressão para que você produza. Você pode ver sua carreira em ascensão, depois em queda, e isso pode ser muito deprimente. Você também fica tão tenso ao fazer um show que muita gente precisa de alguma coisa pra baixar a bola. Quem não sabe lidar com a situação usa drogas. Eu não. Voltava para o quarto com leite e bolachas. (JOHNNY RAMONE, Commando, LeYa, 2012, p. 118)


Ontem fez exatos nove anos que Johnny faleceu. Era 2004 e eu soube pelo noticiário da TV. Naquela noite peguei o violão e fiz a primeira música da Fliperama. Foi uma singela homenagem de um garoto ao seu ídolo. Lembro alguns versos:


É difícil aceitar
Todos estão indo embora
Não é fácil acreditar
Ouvir Ramones agora me faz chorar

Viva Johnny Ramone!